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Acordei, hoje, ansioso para ver as notícias da manhã. Estava ávido para saber do resultado do referendo na Venezuela, que iria confirmar, ou não, a possibilidade do presidente reeleger-se indefinidamente. A outra, era sobre o Corinthians. Já que eu torço pelo São Paulo, não deve ser difícil imaginar a minha satisfação de ver o “timão” ser rebaixado.

Pois bem, vamos para o mais importante: o Corinthians? Não. O Referendo!

Nas últimas semanas estava cansado de ler e ouvir todo o aparato midiático da globo (G1, globo.com, jornal da globo, jornal de hoje, jornal O Globo, Jornal Nacional) gemer em pranto em razão da possibilidade de Chávez mudar a Constituição Bolivariana .

Para a Globo e sua tropa de elite, dentre eles, Míriam Leitão, o referendo na Venezuela poderia significar a “ameaça da liberdade”, enquanto fundamento da democracia. Com isso, o Brasil que, segundo a Globo, é um país democrata, poderia ser influenciado pelo “mau” exemplo do vizinho.

O telespectador comum da classe média brasileira, que não tem acesso a outros meios de informação, exceto a Globo e a Veja, é insistentemente tratado como um depósito de notícias carregadas de parcialidade (vale lembrar o que disse o âncora do Jornal Nacional, William Bonner: o telespectador da classe média brasileira é semelhante ao Homer Simpson).

Talvez, você que leia, possa pensar: “o autor deste blog é mais um adepto dos comunistas comedores de criancinhas, entre eles, Chávez”. Se é assim, vejamos.

Quantas vezes você ouviu falar sobre a Rússia nessas duas últimas semanas? Nenhuma? Então, quantas vezes você ouviu falar, nessa semana, da Venezuela? Difícil de contar, não é? Sendo assim, vamos para outra pergunta. Quantas vezes você ouviu falar nessa semana sobre Putin? Também nenhuma? Quantas vezes você ouviu falar de Chávez? Ah! Essa é difícil de responder.

Bem, para quem se limita a assistir aos noticiários da Globo ou da Revista Veja, indubitavelmente já deve ter ouvido falar de Chávez e da Venezuela. Em geral, o que sabemos é que aquele país é rico em petróleo e que seu presidente é um ditador-comunista-comedor-de-criançinhas-que-odeia-os-estados-unidos, não é?

E o que dizer de Putin e da Rússia? Para quem não sabe, Putin é o presidente daquele país, cujo poderio militar se assemelha aos dos EUA, tanto no potencial bélico (segundo maior detentor de bombas atômicas do mundo) quanto humano (população com cerca de 150 milhões de habitantes). Além disso, possui imensas reservas energéticas e minerais.

Mas qual a relação entre os dois países?

Hoje, o presidente russo deu um grande passo para conseguir mudar a Constituição da Rússia. O partido de Putin obteve maioria nas eleições legislativas através de fraudes grotescas e previamente anunciadas pelo presidente.

Já na Venezuela, o governo chavista, acusado de facista, totalitário e comunista, perdeu o referendo em uma disputa acirrada. Não houve fraude. A democracia prevaleceu. Chávez foi à televisão e reconheceu a derrota. Parabenizou seu opositores.

Todavia, ninguém deu importância para o punhal desferido contra a democracia na Rússia.

Agora, pergunto-lhe: o que seria pior? Um país como a Venezuela, rico em petróleo e dominado por um ditador-comunista-que-odeia-os-estados-unidos? Ou um país como a Rússia, armado até os dentes com bombas nucleares e dominado por um ditador?

No entanto, porque a mídia brasileira não comentou sobre a Rússia e Pútin?

Talvez porque a Venezuela seja um país rico em petróleo. Um país que trás nas suas costas o estigma da submissão, da colonização, e, em razão disso, a Globo se ache legitimizada para mandar calar a boca do povo da Venezuela (como fez o rei espanhol com o presidente representante do povo venezuelano).

Ou, talvez, porque a Rússia esteja muito longe da gente e, qualquer coisa que aconteça lá, não afetará o Brasil.

Porém, é bom lembrar que, em tempo de globalização, até um bater de asas de uma borboleta no continente europeu pode trazer um vendaval para o continente americano.

– “Abra a porta! Vamos, abra essa porta”! Diante da porta do banheiro de uma high school inglesa, um homem calvo com poucos cabelos grisalhos gritava em desespero, tenebroso pelo pior. – “Abra, vamos…”! Continuava, mas agora desferindo contra a porta imóvel e indiferente, murros e ponta-pés. – “Abra a porta! É você? Abra”! Após alguns minutos de tentativas infrutíferas, suas cordas vocais começavam a demonstrar que não suportariam muito mais tempo.

Curiosas com tanto barulho sem qualquer motivo aparente, algumas pessoas aproximaram-se do local e puseram-se instintivamente a ajudar o solitário homem que empurrava a porta que teimava em permanecer trancada.

Depois de alguns minutos de colossal insistência, a porta cedeu à sua própria apatia e, finalmente, abriu. De forma uníssona todos olharam aterrorizados para o chão. Nesse instante, lágrimas em prantos umedeceram o vento que da janela violava o silêncio jaz do corpo imóvel.

Era exatamente 2:37 PM.

Assim começava mais um filme que, sob os olhares da platéia do cinema, mostrava-se socialmente interessante. O seu enredo trazia a história da vida cotidiana de seis jovens ingleses que estudavam numa high school. Jovens aparentemente “normais”, mas que se revelavam, em suas intimidades, como vidas mergulhadas em desespero, abafado pelas jaulas da aparência.

Uma das personagens, uma bela jovem de olhos claros e cabelos loiros, diariamente dirigia um mercedez-bens para ir à aula em companhia do seu irmão. Ela estava grávida, mas ainda não sabia. Desconfiada, entra no banheiro da escola, tranca a porta, tira a calcinha e faz um auto-teste. Após a confirmação, derrama-se em choro e desolação. Há alguns dias havia sido estuprada por seu próprio irmão, que vive afogado em livros, pois pretende ser, um dia, um respeitado advogado.

Enquanto isso, outra bela garota destoava seu corpo diante do espelho. Possui seios fartos, pele branca, sexy. Objeto de consumo de qualquer homem. Todo dia, após as refeições escolares, entra no banheiro, tranca a porta e vomita a comida que o estômago ansiava digerir. O seu namorado é um dos garotos mais belos da escola, um macho viril, jovem esportista, que adora exibir seu corpo pelos corredores. Em casa, com a porta do seu quarto trancada, costuma masturbar-se em frente ao computador para saciar seus desejos mais íntimos diante de imagens que exibem cópulas entre homens.

Às vezes, discretamente, transa com um colega que também estuda na mesma escola. Este, homossexual assumido, vive em conflito interior devido à rejeição social que sofre em razão da sua opção sexual. Seus pais consideram sua sexualidade uma fase de desajuste adolescente. Ninguém sabe, mas, para afogar suas mágoas, fuma maconha por trás da porta trancada do almoxarifado da escola.

Um outro rapaz, torto, corcunda, feio, possuía, além desses problemas, um outro. Este, era bem mais grave: não conseguia controlar os desejos fisiológicos do seu aparelho urinário. Por isso, em sala de aula, era constante o seu nome ser alvo de chacotas do professor e dos colegas devido ao odor da urina que descia sobre suas pernas e pingava sobre o chão. Alguns revoltavam-se. Ninguém o entendia. Com tanto desprezo, às vezes sentia vergonha de si mesmo. Não lhe restava nada a fazer. Resignado, dirigia-se desoladamente ao banheiro e trancava a porta. Para evitar tanta humilhação, já tentou usar fraldas, mas não adiantou. Na sua mochila sempre havia uma calça da mesma cor, do mesmo tipo, do mesmo tamanho, sempre pronta para ser trocada nesses momentos inoportunos, mas, infelizmente, ultimamente o seu corpo vinha o traindo inúmeras vezes durante o dia. Mas nada disso importava, afinal, sua família o amava.

Essas são pequenas histórias da vida privada de seis jovens de uma nação desenvolvida da Europa, que se localiza há milhares de quilômetros de distância daqui, cuja população é hoje estimada em mais de cinqüenta milhões de habitantes, quase quatro vezes menor do que a do Brasil.

Cada um com o seu próprio cativeiro moral, cuja natureza independia de nacionalidade. Muito embora todos eles possuíssem um problema em peculiar, aos olhos da sociedade, nenhum podia ser considerado potencialmente suicida.

No entanto, às 2:37 PM, naquela escola, sob os olhares de uma platéia estarrecida, um corpo exibia-se como uma ilha circundada por um mar de sangue. O seu pulso havia sido cortado com um único golpe de tesoura, espalhando-se pelo chão do banheiro a cor do desespero. Os motivos para o suicídio? Ninguém sabe. Nenhuma carta havia sido deixada. Não havia qualquer motivo aparente.

Ao final do filme, um silêncio fúnebre reinava sobre o coração e a consciência da platéia, que, reconhecendo-se naquele corpo que jazia, caminhava silenciosamente à procura da saída, cuja porta, durante toda a exibição do cinema, encontrava-se escancaradamente aberta.

Comunidade do Passo da Pátria. Há mais de 5 anos seus moradores aguardam ansiosos pela concretização do projeto de (re?)urbanização prometido pelos governos municpal e federal (Foto: AMORIM JÚNIOR).

Que a pátria é um conceito ideológico, disso ninguém duvida. Mas quais são suas raízes? O que tem por trás de suas cortinas? O que está por cima de sua nuvem de fumaça? O que se esconde entre as suas mais íntimas entranhas? Enfim, por qual motivo omite a sua essência? Karl Marx, no século XIX, já nos fornecia o enredo, e dizia no Manifesto Comunista:

os comunistas são censurados por querer abolir a pátria, nacionalidade (…) os operários não têm pátria. Não se lhes pode tomar aquilo que não têm (…) na medida em que é abolida a exploração de um indivíduo por outro, é abolida também a exploração de uma nação por outra (…) com o desaparecimento do antagonismo das classes no interior das nações, desaparece também a posição de hostilidade entre as nações.

De forma muito objetiva, o “barbudo comunista” dizia que não havia sentido proletários de nações distintas, há quilômetros de distância, lutarem visceralmente entre si, visto que ambos não se conheciam pessoalmente e não possuíam interesses divergentes – antagônicos -, uma vez que não eram proprietários dos meios de produção e, por sua vez, eram igualmente explorados pela burguesia.

Revelava-se, então, o conteúdo ideológico do conceito de Pátria: uma idéia formada pela burguesia para promover a luta entre nações distintas em defesa da garantia de seus próprios interesses.

Quer dizer então que, quando os caudalosos mananciais de riquezas dos burgueses eram ameaçados, conclamava-se a população pobre e negra para lutar em defesa dos interesses da minoria branca e proprietária, ou melhor, a defesa dos interesses da Pátria! Assim, amaldiçoados desde o nascimento a uma vida de bestas de carga, os explorados eram instigados a se transformarem em heróis da Pátria, engrossando as fileiras do front de batalha.

Todavia, a Pátria sempre tratou seus próprios filhos com grave distinção. No Brasil, por exemplo, enquanto seus filhos bastardos eram criados sob a sombra da rejeição ou da violência do chicote, os seus filhos “legítimos” viviam permanentemente afogados em um luxo estéril. Não obstante a existência desse abismo, a Pátria continuou a gerar um imenso contingente de filhos bastardos que, apesar da rejeição, encontravam-se potencialmente aptos a arriscar suas vidas em defesa de seu genitor. E quanto mais o país se desenvolvia, o abismo crescia em sentido horizontal e vertical, aumentando a sua área de influência e aprofundando as diferenças entre seus filhos.

Apenas após três séculos, a prole historicamente rejeitada, reivindicando insistentemente a sua condição de filhos da Pátria, libertaram-se dos latifúndios açucareiros e dos currais do sertão, expondo as suas chagas originárias das épocas de fome e desilusão.

Os dados publicados no Rio Grande do Norte revelam que, nas décadas de 70 e 80, multiplicaram-se como pragas a população urbana oriunda de outros municípios, que se amontoaram como ratos nas periferias do município de Natal, sobrevivendo com os restos desperdiçados pela burguesia enfadada.

As caravanas de famintos que chegavam a Natal, quando não conseguiam acomodar-se nas vizinhanças do centro urbano da capital – em cortiços próximos às áreas de labuta -, atravessavam o outro lado da ponte de Igapó ou fincavam seus tetos às margens do Rio Potengi.

Por ironia da história, às margens do Potengi, formou-se “a terceira margem do rio”, talvez aquela anunciada por Guimarães Rosa, composta pelos marginalizados do sistema capitalista, vivendo há um “Passo da Pátria”. Há um passo da dignidade humana, do direito à moradia, do direito ao trabalho, do direito à educação, do direito à saúde, enfim, do direito ao reconhecimento como filhos da Pátria.

No entanto, após três décadas transcorridas, até hoje, o tão esperado “Passo da Pátria”, que separa os filhos bastardos de seu genitor, nunca foi dado. Mas sua prole aguarda ansiosa para que a patria potestas seja, de fato, assumida pelo Estado brasileiro.

Enquanto esse momento não chega, seus filhos bastardos admiram pela janela de seus casebres a evolução do progresso cristalizado na paisagem riscada pela ponte que liga as duas margens do Potengi. A terceira margem do rio, que fica há um passo desta bela obra de engenharia humana, permanece como se vivesse sob as mesmas condições embrionárias.

Como se a Pátria, que parece viver eternamente em berço esplêndido, em verdade somente se despertasse do seu sono, da sua cólera ou da sua omissão quando fosse irremediavelmente ameaçada…

Faltam dois dias para o início da “Grande Festa”! A cidade inteira já sente o clima indefectíficel da vibração do trio-elétrico, das arquibancadas, da multidão, da música, dos cantores. São dois dias de espera que se assemelham à eternidade…

À noite, contagiado por essa sensação, estava ansioso para chegar em casa e aguardar ocioso mais um dia passar. Dentro do meu carro, deixava o vento bater sobre meus cabelos, enquanto a rádio me embalava ao som de “Insolação do Coração”, de Babado Novo, que simboliza aquilo que o Brasil tem de melhor: carnaval e futebol, salvo, é claro, a beleza natural das mulatas brasileiras.

De repente, sob a luz vermelha do sinal de trânsito, a música pára. Mais uma vez a rádio dá problema. Bem, talvez fosse alguma interferência no sinal. De qualquer maneira, enquanto estava parado, tentando sintonizar novamente o canal, fui interrompido grosseiramente por dois mendigos que aproveitavam a minha situação de fragilidade para pedir esmolas.

Um deles, um velhinho, vestido em trajes sujos, rasgados, grandes demais para o seu corpo franzino, aparentava seus oitenta anos, tinha o semblante marcado pelas rugas do tempo. Andava meio desajeitado, mancava. Parecia cego, visto que, em uma das mãos, apoiava-se sobre um bastão de madeira; e, na outra mão, era guiado por outro mendigo: um jovem. Raquítico, com a cabeça desproporcional ao corpo, lembrava aquelas crianças típicas de países subdesenvolvidos. Possuía um olhar triste, vago no tempo e no espaço. Sua mão aberta e seu braço esticado estavam ávidos pela migalha prestes a receber.

Motivado por meu sentimento de complacência diante da lamentável situação, tirava da minha carteira uma moeda de R$ 0,10, quando, no mesmo instante, a rádio retorna e o sinal verde desponta sobre meus olhos.

Numa atitude de bastante naturalidade, como se meus instintos me guiassem, apertei o acelerador, deixando riscas sobre o asfalto, numa cena cinematográfica!

Após chegar em casa, tomei um banho quente para relaxar. Em seguida, sentei-me sobre o confortável sofá, que parecia acolher-me com seus braços enormes. Minha “empregada” preparava um belo jantar para eu acalmar os desejos do meu estômago em fúria. Enquanto isso, olhava hipnotizado para o meu abadá, adquirido em parcelas que se perdem no horizonte. Encontrava-me ansioso para o Carnatal chegar. Quanto beijo de boca, azarações, curtições, paqueras, bebidas, amigos!

Hã?! E os mendigos?

Quem se importa?

A notícia de que uma menina, com idade de 15 anos (não confirmada), havia sido “jogada” numa cela com 20 homens, provocou várias reações na consciência do “cidadão” brasileiro. Algumas, expressando revolta, indignação, incredulidade. Outras, banalizando mais um caso de violação contra os direitos humanos, uma vez que virou rotina presenciar no cotidiano exemplos similares, ou até piores.

Sem querer analisar currículo, ou seja, não importando o ato ilícito praticado pela menina, o fato é que é tenebroso imaginar que os direitos da pessoa humana – consagrados na Constituição brasileira de 1988 – são tão facilmente aviltados diante de uma população que, hodiernamente, age com naturalidade diante de tais eventos. Isto demonstra o descrédito que gozam nossas instituições, como simboliza a atitude do delegado da cadeia de Abaetuba, interior do Pará, que permitiu tamanha brutalidade com a menor, ao invés de aplicar à risca os ditames da lei.

 Como se vê, os 21 anos de história da ditadura brasileira, marcada pela tortura contra pessoas, não acabou. Continua, hoje, sob novo regime político. Portanto, não adianta permutar o regime, se a mente autoritária daqueles que participam das instituições continua a mesma.

São resquícios de um passado de 500 anos de tortura, de um país que foi criado para uma minoria. Que excluiu da construção política os marginalizados latu sensu, como as mulheres, pobres, negros e ex-escravos. E que, talvez por isso, o Brasil do século 21, ainda continua sendo a senzala do século 16, onde mulheres, negras ou brancas, pobres ou ricas, eram objetos de satisfação dos seus senhores e coronéis.

De agora em diante, os regozijos granjeados pelos prisioneiros e pelo delegado de Abaetuba acompanharão a vida da menina, enquanto que tal brutalidade amanhã será esquecida pelas instituições, pelos noticiários e pelo povo brasileiro, que deverão acompanhar mais um outro (e novo) capítulo de violação contra os direitos humanos… uma tradição secular!

Os berros mergulhados de cólera do príncipe dos sociólogos, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, receberam ontem (23/11) grande destaque da mídia brasileira. Segundo esta, FHC conclamou seus súditos e correligionários a iniciarem uma peregrinação com o escopo de reaproximação com a massa de pobres, analfabetos e excluídos do País.

E não poderia ter começado “melhor”!

De acordo com o ex-presidente do Brasil, os tucanos farão o possível e o impossível para que o povo brasileiro saiba falar bem o vernáculo brasileiro e, em seguida, citou o exemplo de Minas Gerais, onde o governo do PSDB ampliou de 4 para 9 anos o ensino do Estado. De maneira implícita, em seu discurso, FHC ainda ironizou a baixa escolaridade do presidente Lula.

Com tanta grosseria e preconceito impregnado, o príncipe dos sociólogos deixou evidente o motivo pelo qual os seus súditos obtiveram sucessivas derrotas no cenário político brasileiro durante as últimas eleições.

Alegando possuir a divina sabedoria, FHC tratou com desdém os desprivilegiados do País (eufemismo de marginalizados), que possuem uma incrível capacidade de superar sua condição paupérrima e conquistar postos avançados na hierarquia social brasileira, mesmo com a exclusão proporcionada pela gravíssima situação da educação brasileira. Veja-se, por exemplo, a biografia de seu desafeto principal, o presidente Lula.

É bem verdade que, desde os sofistas da Grécia Antiga, a oratória era bastante conhecida pelo seu incrível poder de persuasão, quando bem utilizada. A boa concatenação das idéias e das palavras transformava-se numa verdadeira arma capaz de convencer as mentes mais ingênuas, de conquistar o poder e desmoralizar os inimigos.

No entanto, não obstante a sua oratória rebuscada, FHC não possui o carisma, o encanto natural que o associe aos anseios do povão. Assim, muito embora o discurso de Lula não se assemelhe ao do seu arqui-rival, a presenca carismática do presidente, o seu passado vinculado aos trabalhadores e suas palavras carregadas de emoção, sempre o reaproxima das camadas pobres do Brasil.

Por fim, vale lembrar, FHC ainda enfatizou que o PSDB não é um partido elitista, mas acadêmico! O príncipe dos sociólogos deveria lembrar que, até antes da universalização do ensino superior, iniciado no governo atual com o PROUNI, elitismo e academicismo eram duas palavras quase sinônimas, uma vez que o diploma de ensino superior estava quase sempre reservado às elites do país.

Para um governo “mal educado”, até que Lula começou bem. Talvez seja devida à ânsia, de quem nunca teve a oportunidade de ter uma escola decente, de livrar o Brasil da herança maldita de ser um país composto de analfabetos… ou então, deve ser a contribuição oculta do governo em ajudar o PSDB a realizar o objetivo que, há décadas, vem perseguindo: a (re)aproximação com a massa popular brasileira.

Uma das cláusulas mais importantes do Mercosul é a que estabelece que só países com regimes comprovadamente democráticos podem pertencer ao bloco como membros plenos, e a Venezuela sob Chávez não se enquadra neste perfil (MSM – 21/11).

Anteontem (21/11), o governo chavista obteve a primeira vitória no Brasil para ver aprovado o seu ingresso no MERCOSUL. Alguns opositores acusam o regime político “antidemocrático” ou “totalitário” de Chávez como empecilho para sua integração no bloco.

Bem, se a democracia for realmente um valor substancial, temos que rever a “democracia” no Brasil, que mais se assemelha à sua forma corrompida, a “demagogia”, conforme o pensamento de Aristóteles, haja vista que não há como considerar democrático um país que é dominado por oligarquias que há décadas se revezam no poder (no Rio Grande do Norte, por exemplo, os Alves e os Maias formaram uma das mais fortes oligarquias do Brasil, vide Garibaldi Alves e José Agripino Maia, hoje, no Senado, disputando a cadeira de presidente da Casa).

Além disso, vejamos o exemplo da democracia representativa. O voto secreto no Congresso Nacional é um exemplo típico da falta de respeito com a vontade do eleitor. Se um deputado federal ou senador é representante da vontade dos eleitores, então, o voto secreto revela-se estapafúrdio no sistema democrático representativo

Entrementes, sem excluir outros exemplos típicos da demagogia brasileira, o princípio da harmonia entre os três poderes, que é um pilar da democracia, originada de Montesquieu, hoje se vê ameaçada com a legislação ativa do Poder Judiciário. É bom lembrar que, quando o governo Lula foi à China, até a reacionária Revista Veja ovacionou a atitude do barbudo, muito embora o governo chinês seja essencialmente totalitário.

Portanto, o fato de o governo Hugo Chávez estar se constituindo como uma alternativa viável ao capitalismo excludente hodierno, é o que realmente amedronta os privilegiados do sistema, que, quando não possuem argumentos fundamentados para criticar países vizinhos, partem para a desqualificação sem fronteiras.

É o caso, por exemplo, de ACM Neto, que ontem (22/11) afirmou que os venezuelanos não sabem votar. Como se vê, parece cômico como a elite parasitária do nosso país facilmente irrompe contra o princípio da soberania e da autodeterminação dos povos…

De qualquer forma, eu não sei se esse tipo de pensamento é oriunda de uma interpretação linear da realidade política de um país (e aí é um problema sério, pois mostra que o ACM Neto utiliza-se apenas de um neurônio para analisar tal realidade. Talvez o mesmo neurônio que ele utiliza para ler a Revista Caras).

Ou então, esse tipo de pensamento é ainda um resquício daquele tempo em que os donos de engenhos e coronéis do sertão tratavam seus subordinados como burros de carga.Se for assim, ACM Neto só deve pensar que o povo do Brasil ainda se assemelha aos escravos e explorados do século XVI.

Seja como for, o ACM Neto, com esse pensamento, revela que o “bom voto” ou o “voto certo” é aquele que beneficia o sistema oligárquico-burguês e, como consequência, a sua própria família e as demais que mamam nas tetas do cofres públicos há décadas….

E viva a demagogia, quer dizer, a democracia brasileira!