– “Abra a porta! Vamos, abra essa porta”! Diante da porta do banheiro de uma high school inglesa, um homem calvo com poucos cabelos grisalhos gritava em desespero, tenebroso pelo pior. – “Abra, vamos…”! Continuava, mas agora desferindo contra a porta imóvel e indiferente, murros e ponta-pés. – “Abra a porta! É você? Abra”! Após alguns minutos de tentativas infrutíferas, suas cordas vocais começavam a demonstrar que não suportariam muito mais tempo.
Curiosas com tanto barulho sem qualquer motivo aparente, algumas pessoas aproximaram-se do local e puseram-se instintivamente a ajudar o solitário homem que empurrava a porta que teimava em permanecer trancada.
Depois de alguns minutos de colossal insistência, a porta cedeu à sua própria apatia e, finalmente, abriu. De forma uníssona todos olharam aterrorizados para o chão. Nesse instante, lágrimas em prantos umedeceram o vento que da janela violava o silêncio jaz do corpo imóvel.
Era exatamente 2:37 PM.
Assim começava mais um filme que, sob os olhares da platéia do cinema, mostrava-se socialmente interessante. O seu enredo trazia a história da vida cotidiana de seis jovens ingleses que estudavam numa high school. Jovens aparentemente “normais”, mas que se revelavam, em suas intimidades, como vidas mergulhadas em desespero, abafado pelas jaulas da aparência.
Uma das personagens, uma bela jovem de olhos claros e cabelos loiros, diariamente dirigia um mercedez-bens para ir à aula em companhia do seu irmão. Ela estava grávida, mas ainda não sabia. Desconfiada, entra no banheiro da escola, tranca a porta, tira a calcinha e faz um auto-teste. Após a confirmação, derrama-se em choro e desolação. Há alguns dias havia sido estuprada por seu próprio irmão, que vive afogado em livros, pois pretende ser, um dia, um respeitado advogado.
Enquanto isso, outra bela garota destoava seu corpo diante do espelho. Possui seios fartos, pele branca, sexy. Objeto de consumo de qualquer homem. Todo dia, após as refeições escolares, entra no banheiro, tranca a porta e vomita a comida que o estômago ansiava digerir. O seu namorado é um dos garotos mais belos da escola, um macho viril, jovem esportista, que adora exibir seu corpo pelos corredores. Em casa, com a porta do seu quarto trancada, costuma masturbar-se em frente ao computador para saciar seus desejos mais íntimos diante de imagens que exibem cópulas entre homens.
Às vezes, discretamente, transa com um colega que também estuda na mesma escola. Este, homossexual assumido, vive em conflito interior devido à rejeição social que sofre em razão da sua opção sexual. Seus pais consideram sua sexualidade uma fase de desajuste adolescente. Ninguém sabe, mas, para afogar suas mágoas, fuma maconha por trás da porta trancada do almoxarifado da escola.
Um outro rapaz, torto, corcunda, feio, possuía, além desses problemas, um outro. Este, era bem mais grave: não conseguia controlar os desejos fisiológicos do seu aparelho urinário. Por isso, em sala de aula, era constante o seu nome ser alvo de chacotas do professor e dos colegas devido ao odor da urina que descia sobre suas pernas e pingava sobre o chão. Alguns revoltavam-se. Ninguém o entendia. Com tanto desprezo, às vezes sentia vergonha de si mesmo. Não lhe restava nada a fazer. Resignado, dirigia-se desoladamente ao banheiro e trancava a porta. Para evitar tanta humilhação, já tentou usar fraldas, mas não adiantou. Na sua mochila sempre havia uma calça da mesma cor, do mesmo tipo, do mesmo tamanho, sempre pronta para ser trocada nesses momentos inoportunos, mas, infelizmente, ultimamente o seu corpo vinha o traindo inúmeras vezes durante o dia. Mas nada disso importava, afinal, sua família o amava.
Essas são pequenas histórias da vida privada de seis jovens de uma nação desenvolvida da Europa, que se localiza há milhares de quilômetros de distância daqui, cuja população é hoje estimada em mais de cinqüenta milhões de habitantes, quase quatro vezes menor do que a do Brasil.
Cada um com o seu próprio cativeiro moral, cuja natureza independia de nacionalidade. Muito embora todos eles possuíssem um problema em peculiar, aos olhos da sociedade, nenhum podia ser considerado potencialmente suicida.
No entanto, às 2:37 PM, naquela escola, sob os olhares de uma platéia estarrecida, um corpo exibia-se como uma ilha circundada por um mar de sangue. O seu pulso havia sido cortado com um único golpe de tesoura, espalhando-se pelo chão do banheiro a cor do desespero. Os motivos para o suicídio? Ninguém sabe. Nenhuma carta havia sido deixada. Não havia qualquer motivo aparente.
Ao final do filme, um silêncio fúnebre reinava sobre o coração e a consciência da platéia, que, reconhecendo-se naquele corpo que jazia, caminhava silenciosamente à procura da saída, cuja porta, durante toda a exibição do cinema, encontrava-se escancaradamente aberta.
Adorei o filme!!!!
Parabens!!!!